sábado, maio 28, 2005

O Mito de Kore

A história aqui narrada é um resumo do Hino a Deméter, atribuído a Homero.6 É a fonte mais antiga e rica em detalhes do mito das duas deusas.

0 MITO

Naquele dia, Deméter, deusa do grão e da colheita, cuidando de cobrir a terra de verdura, flores e frutos, não estava junto à filha, a linda Perséfône, também chamada Kore. A jovem brincava com as ninfas no campo de Nísia; teciam coroas e guirlandas "misturando violetas e íris, rosas, jacintos e lírios". Atraída pelo perfume do narciso "de cem ramos", Kore afasta-se das companheiras e debruça-se para colher um botão que floria na borda de um penhasco. Nesse momento a terra se abre e surge da fenda o deus da morte e do mundo subterrâneo, Hades, que a carrega, apesar de seus gritos, em seu carro puxado por "imortais cavalos", para Hades, seu reino. Perséfone grita pedindo a Zeus que a salve, sem suspeitar que o rapto tinha sido tramado pelo filho de Cronos com seu irmão, o senhor de Hades.

Do fundo de sua gruta, Hécate, deusa da sombra e da tênue luz da lua, nada vê, mas ouve o grito de Kore. Distante, "através dos picos das montanhas e das profundezas do mar", Deméter também o ouve. Durante nove dias sem comer nem se lavar, carregando tochas, ela procura a filha. Na aurora do décimo dia, Hécate vem a seu encontro e diz à deusa inconsolável que sabia que sua filha tinha sido raptada mas não sabia por quem. Juntas, vão perguntar ao Sol, o deus Hélio, que tudo vê no seu curso pelo céu. 0 deus resplandecente conta que Perséfone tinha sido dada por Zeus a Hades para ser sua esposa e rainha do reino dos mortos, e volta para as alturas no seu carro de luz, deixando imersa em escuro desespero a deusa Deméter. Desfigurada pela dor e vestida em andrajos, ela dirige-se, então, para as cidades dos homens.

Uma tarde, tendo chegado ao reino de Elêusis, ela se senta à beira de uma fonte chamada Fonte das Donzelas, à sombra de uma oliveira. As filhas do rei vêm apanhar água e aproximam-se de Deméter. Quando esta lhes diz que busca trabalho como ama, as jovens levam-na a seus pais. Coberta com escuro manto, a deusa entra no palácio onde a recebem com respeito. Recusa o vinho que lhe é oferecido mas aceita uma bebida feita com cevada e água.

A rainha entrega-lhe seu filho recém-nascido. Deméter, que o recebe "em seu colo perfuma-do", começa a dar-lhe cuidados para que ele cresça "como se fora o filho de um deus": unta-o com ambrosia e à noite, secretamente, coloca-o sobre chamas para que ele se torne imortal.

Uma noite, a rainha, insone e "com pensamentos tolos", deixa seu "quarto perfumado" e vai ver o filho entregue à ama. Surpreende-a segurando a criança sobre o fogo e solta um grito apavorado. Com isso impede que o filho se torne imortal.

"Ondas de terrível ira" atravessam a deusa que, dando-se a conhecer, repreende a mãe por ter privado o filho da imortalidade.

Revelada a presença da deusa, os reis e o povo de Elêusis erigem-lhe magnífico templo. Para dentro dele Deméter se retira e entrega-se à saudade da filha. A dor cresce em seu peito; seu luto e desespero começam a transbordar trazendo destruição sobre a terra. Naquele ano terrível nenhuma semente brotou; a humanidade teria perecido pela fome e os deuses estariam para sempre privados das oferendas e sacrifícios dos homens se Zeus "não tivesse percebido isso e ponderado em sua mente". A deusa Íris é a primeira mensageira que vem implorar a Deméter que aceite o convite para vir ao Olimpo receber grandes honras e que devolva a fertilidade aos campos dos homens. Deméter, inabalável em sua vingança, recusa-se a atender a Íris e a todos os deuses que vêm, um por um, suplicar que retire seu castigo. Declara que nenhuma semente brotará enquanto não lhe for devolvida Perséfone. Finalmente, Zeus envia Hermes ao Hades para pedir ao senhor dos mortos que concorde em ceder a esposa à sua mãe.

Hades dá seu consentimento; Kore, exultante, prepara-se para partir. Na despedida, o marido pede-lhe que coma com ele alguns gomos de romã. Depois de compartilharem a fruta, Perséfone salta no carro dourado de Hermes: e "puxados por cavalos de longas asas" atravessam os mares, os picos das montanhas, e chegam ao bosque perto do templo. Mãe e filha correm em direção uma a outra e abraçam-se numa alegria sem limites. Subitamente, Deméter suspeita de um embuste e pergunta à filha se tinha comido alguma coisa enquanto estava no mundo subterrâneo. Perséfone lembra-se de ter partilhado a romã com o marido, e sua mãe sabe então que só a terá de volta por dois terços do ano. Um terço a filha terá que passar com Hades no reino dos mortos. Por isso durante uma terça parte do ano tudo seca e morre na natureza. E todos os anos, quando Kore volta, tudo volta a brotar. Sua volta traz a primavera - sua mãe cobre a terra de flores.

Depois de um dia de muitos abraços e de contarem uma a outra tudo o que lhes tinha acontecido, na alegria de estarem novamente juntas, Deméter chamou os governantes da cidade e os instruiu na celebração de um ritual. Os Mistérios de Elêusis foram fundados para que a cada ano se repetisse aquele encontro entre Deméter e Perséfone. Então, as duas deusas partiram para o Olimpo e aí estão juntas, na companhia dos deuses.

Este texto foi retirado de um site, para um estudo mais profundo, visite-o clicando aqui.

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Uma reflexão: a co-relações entre Afrodite e Perséfone - Por Priscila Manhães

Todas deusas são faces de uma mesma Deusa. Então podemos muito bem nos identificar com várias faces ou com todas elas...

Afrodite é a GRANDE DONZELA. Ela é absolutamente livre e só faz o que quer pelo simples prazer de satisfazer-se. Ama pelo prazer de amar... Não quer compromisso, não deseja se prender a ninguém e nem mesmo prender alguém a si. Ela gosta é da conquista, da aventura, da novidade. Ela é a fêmea sedutora e sem limites.

KORE também é um aspecto Donzela da Deusa, mas ela tem um compromisso. Afrodite, ao contrário, se impõe pela conquista: ela seduz para se satisfazer e depois parte. Não olha para trás e não se preocupa com o destino do seduzido. Seu lado negro, inclui até a possibilidade de seduzir por dinheiro ou por vingança, assim como seduzir para fazer alguém sofrer.

Afrodite é a SEDUÇÃO! Ela inspira a PAIXÃO. O "amor incondicional" que Afrodite pode ensinar é o amor sem limite algum. Nem de idade, nem de cor, nem de raça, nem de sexo e nem de tempo. Amar pelo puro prazer de estar amando, pelo tempo que durar... e às vezes, mais de um ao mesmo tempo: homem, mulher, criança, velho, animal - sem qualquer limite mesmo.

Afrodite é uma energia muito difícil de se comungar, pois a liberdade que ela propõe muitas vezes é imensamente maior do que a que estamos acostumados a desejar. A liberdade desse amor sem condição alguma... O que implica com o amor conjugal que Afrodite representa, e para algumas pessoas soa um tanto estranho, já que ela não conseguiu ser fiel a seu marido, mas vale lembrar que ela foi obrigada por Zeus a casar-se com Hefesto, a quem não amava. Ela não estabeleceu com ele nenhum compromisso de partilhar a vida...


Perséfone

Perséfone é a personificação do Ciclo das Estações grego: ela passava quatro meses no Submundo, quatro no Olimpo e quatro na Terra (com sua mãe). Vale lembrar que os gregos só tinham essas três estações. Portanto, fico mais com a opinião um tanto inaceitável que um "rapto" tenha sido dignificado como ação que produz o ciclo das estações. Creio que essa interpretação é tardia, fazendo parte do período patriarcal grego, pois, de certa forma, justificava o rapto de jovens mulheres pelos soldados. Mas Perséfone tinha o "compromisso" com sua mãe, com Hades, com Olimpo.

Entre outras coisas, se pegarmos Platão, perceberemos que ele faz uma associação entre Hades (o Esquecimento) e Dioniso (o Êxtase). Dionísio é uma divindade ligada ao êxtase; sua versão romana é Baco, ligado à bebida, que, de certa forma, também leva ao êxtase (quando na embriagues). Hades, por sua vez, é ligado ao submundo e à morte.

E, realmente, as alusões a Dionisio são fortes e gritantes no mito: a moita de narcisos (flor tradicionalmente atribuída a ele) e as sementes de romã que Hades deu para Perséfone comer. A romã também era atribuída a Dioniso e as sementes, por serem brancas e com o formato de uma gota, representam o esperma dele (os caroços lembram gotas de sêmen).

Bem, isso nos leva a crer que o mergulho da jovem Kore no submundo tenha algo a ver com a sexualidde sagrada. Por outro lado, Hades é associado a Plutão, que rege o signo de Escorpião - um signo de sensualidade e paixão e ligado à terra.

Nessa vivência, ela come três caroços de romã (que, como já disse, está associado a Dionísio e ao sêmen divino), sugerindo uma experiência sexual. Ao mesmo tempo, ela vagueia pelo Mundo das Sombras e lá, tem que encarar sua própria Sombra refletida nos olhos de Hades (o esquecimento, a morte).

Essa experiência é verdadeiramente única: o de encarar sua Sombra... No entanto, não fica ai: ela tem que aceitá-la (Sombra) como sua parte inseparável...

Outro elemento interessante do mito é a forma como Perséfone é chamada no início: KORE. Esse termo significa "mocinha", "garota"... Hoje em dia poderia até ser traduzido como "ninfeta". Mas é sério: a palavra ninfeta nos remete àquela mocinha que está começando a se tornar sedutora.

Portanto, tudo faz parecer que o "rapto" de Kore tenha sido, na verdade, uma ENTREGA SEXUAL. Nesse caso, sua associação com a morte é nítida: o prazer do orgasmo é tão forte que leva ao total esquecimento de todo o restante do mundo e ao êxtase - e voltamos à associação de Hades e Dioniso.

Alguns autores - como Jung - vêem lógica nessa associação, posto que a morte é a privação permanente da personalidade e o êxtase (seja de que tipo for) também provoca esse mesmo efeito, mesmo que temporário. Durante o êxtase sexual, há um total bloqueio da personalidade - não nos lembramos quem somos - sequer que existimos. O êxtase seria, então, uma "morte" (compreendido, é lógico, o sentido disso).

Pessoalmente, acho esse mito um dos mais completos e complexos - do qual gosto muito. E não é só por falar do Submundo.

Uma das suas muitas mensagens é a da SEXUALIDADE SAGRADA. KORE - a "menininha da mamãe" - descobre-se mulher ao entregar-se aos desejos de Hades. Nessa entrega, ela morre - mas morre em inocência, deixando de lado as brincadeiras de menina para tornar-se mulher. Por isso ela sai dessa experiência completamente mudada: agora é PERSÉFONE, ou seja, uma mulher que sabe o que quer, que não está mais sob a custódia de sua mãe, mas tornou-se livre, rainha. É, portanto, o mito da transformação da mulher e da descoberta de seu poder. Trata-se, assim, de um mito profundamente significativo.

De certa forma, essa interpretação é ratificada pela tristeza de Deméter - que já não tem mais a sua "menininha" - e pela tentativa de substituí-la por Demophon, o filho dos reis que a acolheram. Seu lamento lembra, então, o da mãe que já não tem mais filhos para criar e sente-se meio sem razão para viver - e por isso parte para a única coisa que sabe fazer na vida: criar filhos. Apega-se ao filho de outro, casa e passa a cuidar dele como se fosse seu - inclusive fazendo o ritual da imortalidade sem o consentimento dos pais.

Talvez seja por isso também que, no mito, ela se associa a outra Anciã - Hécate -, que seria capaz de compreender sua tristeza. Mas também a Baubo, que a diverte com piadas obscenas levando-a a sorrir com a malícia típica das mulheres.

No mito, Kore ingressa definitivamente no universo da feminilidade adulta, com todo o seu drama de nascimento, sexo e morte.

Até o começo desse século, toda mulher sabia que ao se aproximar o momento do parto estaria exposta à um grande risco de vida. Como a relação sexual é o pré-requisito para a gravidez e o nascimento, também nos liga com forças interiores implacavelmente sombrias. Assim, nesse mito, nascimento, sexo e morte estão ligados num significado além do óbvio: Perséfone descobre outras leis, que se referem às forças da Natureza, às forças da paixão, da destruição, da transformação... Leis que as regras dos homens não conseguem subjugar, nem mesmo entender o sentido. Nesse aspecto, trata-se de um mito fundamentalmente dos Mistérios Femininos.

O dualismo presente no Mito de Perséfone fez com que alguns autores afirmassem sua presença em nossa psiquê. A ida de Perséfone ao Mundo Subterrâneo seria nosso "eu inconsciente" (quando Kore desce ao Submundo, onde a razão - sua mãe - não fala mais alto que sua vontade) e sua volta nosso "eu consciente" (quando volta como Perséfone, a razão a chama novamente, ficar uma estação com sua mãe), numa luta constante.

Laurie Coubot diz: "As Deusas das Profundezas podem colocar as mulheres em contato com o inconsciente. As lembranças, os sentimentos profundos e os sonhos são importantes para elas. Mais do que a de outras mulheres, suas vidas parecem ser guiadas pelos grandes arquétipos. Gostam de desempenhar o papel de conselheiras, amigas, guias e instrutoras. Muitas mulheres influenciadas por estas Deusas possuem poderes sensitivos e dão boas curandeiras ou médiuns."

Sempre que sentir necessidade de entrar em contato com seus sentimentos instintivos mais profundos ou quando sua vida contradizer esses sentimentos, a Deusa pode lhe dar coragem de ser forte ao demonstrar esses sentimentos para os outros, principalmente ao ser amado.

Imagino que haja trilhões de associações e assim poderíamos juntar a Liberdade de Afrodite e o Compromisso de Perséfone, atravessando e usando a ponte entre os dois mundos de uma maneira livre, a liberdade de ir e vir, quando e como quiser. O compromisso de deixar agir o inconsciente e o consciente na plenitude.

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